meio antigo, mas excelente texto do @flaviogomes69

link direto pro site dele: http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/2009/12/27/o-acostamento/

 

O Acostamento

GUARUJÁ (tudo velho) – Desci a Serra hoje com os Gominhos. Viemos de Lada, a peruinha. Muito calor, chuva no Planalto, chuva forte, depois sol e calor de novo. Anchieta ótima, até a Piaçaguera. Para quem não é daqui, breve explicação: é a estrada que liga o sistema Anchieta-Imigrantes, que leva ao Litoral Sul, ao Guarujá e às praias do Litoral Norte. É uma estrada curta, deve ter uns 30 km, pouco mais, talvez, duplicada há bastante tempo. Tem acostamento em quase toda sua extensão.

Estava tudo parado, “excesso de veículos”, como dizem no rádio, e o trajeto que duraria meia hora, se muito, nos tomou duas. Entre outras coisas, porque as pessoas, no Brasil, insistem em trafegar pelo acostamento. Enquanto milhares de bobões se conformam com a velocidade reduzida e as filas, os espertalhões de sempre vão para o acostamento. Ignoram sua função, o perigo de atropelar alguém (um amigo meu morreu “de acostamento” no ano passado, em outra estrada), as bicicletas, os eventuais pedestres em áreas urbanas, querem chegar antes para, no destino, arrotar a esperteza: passei todo mundo pelo acostamento.

Não há milagres na ciência rodoviária. Se uma estrada tem duas pistas e alguns motoristas transformam o acostamento numa terceira, em algum momento vai afunilar, e a velocidade, que já é baixa, vai diminuir ainda mais. E o congestionamento, que já é monstro, ficará pior.

Eu sou um motorista chato. Quando as pessoas começam a me passar pelo acostamento, coloco metade do carro nele. E vou seguindo na velocidade do cortejo, deixando uma vaga ao meu lado. Quem está atrás na faixa de rodagem compreende e não emparelha. Quem vem babando pelo acostamento dá farol, buzina e xinga.

Fazer isso numa perua Lada é ainda mais didático. O cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage, o cara do Civic, todos eles comentam, em seu ar-condicionado, que esses suburbanos de carros velhos deviam ficar em casa, ou descer de ônibus para suas quitinetes na Praia Grande. Caguei. Fico lá, impávido, meio carro no acostamento, causando lentidão na terceira faixa.

De vez em quando volto para a pista e deixo a turba passar, irritada, quando percebo que à frente, no acostamento que ela transformou em pista, tem um caminhão parado, ou alguém vendendo bananas ou caranguejos. Aí o cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage e o cara do Civic tentam voltar à pista na minha frente, e é claro que não conseguem, porque enfio a mão na buzina e jogo o Lada em cima, e o cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage e o cara do Civic morrem de medo de levar uma porrada do suburbano do Lada, que jamais pagará seu paralama amassado, porque é um pobre diabo indo para sua quitinete na Praia Grande.

Claro que nem todo mundo faz isso. E os que não fazem prestam solidariedade e passam a adorar o cara do Lada da quitinete. Hoje ganhamos fãs numa BMW X5 enorme, que passou a se revezar com a perua Lada nessa cruzada quase solitária pela civilidade e pela cidadania.

Não adianta porra nenhuma, somos seres excêntricos numa multidão de idiotas. Alguém sempre deixa o cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage e o cara do Civic voltarem, a Polícia Rodoviária não faz picas, ninguém se dá mal. Ou quase ninguém. Um desses palhaços que me passou, numa Land Rover gigantesca, estava sendo multado no pé da ponte. Passamos bem devagar, eu e os Gominhos, escancaramos as janelas e gargalhamos com gosto.

Eu e os Gominhos somos bem implicantes, quando queremos. Gominhos 2 ficou meio nervoso, disse que um dia alguém vai me dar um tiro pela janela, mas quando passamos pela solidária BMW X5 e recebemos sorrisos e sinais de positivo, ficou mais tranquilo e sentiu uma pontinha de orgulho do pai.

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